Ferrovia Centro-Atlântica: o impasse entre o que se anuncia e o que se obriga
By Fernanda Oppermann • March 30, 2026

A renovação da FCA chega ao TCU com uma lacuna de 163 obras sem financiamento - e repetir essa armadilha pode custar caro ao próximo ciclo ferroviário
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) encaminhará ao Tribunal de Contas da União (TCU), ainda em abril de 2026, o acordo de renovação antecipada da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), cuja concessão vence em agosto deste ano. O acordo firmado com a VLI Logística prevê R$ 24 bilhões em investimentos e promete modernizar uma das principais espinhas dorsais logísticas do país. O problema é que a planilha econômico-financeira - o único instrumento juridicamente vinculante do contrato - garante recursos para apenas 15 das 178 obras que os próprios estudos técnicos da ANTT apontam como necessárias. As outras 163 existem nos cadernos de engenharia, mas não no orçamento da concessão.
A FCA é a maior ferrovia em extensão do Brasil, com cerca de 8 mil quilômetros. Conecta Minas Gerais, Bahia, Goiás, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Sergipe, sendo responsável pelo escoamento de grãos, minério e produtos industrializados do Centro-Oeste e do Sudeste. A concessão original, firmada em 1996, chega ao fim neste ano, pressionando governo e regulador a fechar o acordo antes da expiração contratual. O processo tramita no Ministério dos Transportes e na ANTT desde ao menos 2023, precedido de estudos sobre conflitos urbanos em mais de 40 municípios, estado da via permanente e queixas de prefeituras sobre cruzamentos em nível sem manutenção.
O problema não é o valor dos R$ 24 bilhões anunciados - é que o contrato de renovação não obriga a execução das obras estruturais mais urgentes. A diferença entre um "caderno de engenharia" e uma "planilha financeira vinculante" pode parecer tecnicismo; no setor ferroviário brasileiro, ela define se a obra acontece ou se vira promessa histórica.
Os estudos técnicos da ANTT mapearam 178 intervenções prioritárias ao longo da malha da FCA: passagens em nível, cercamentos, ajustes de traçado, segregação ferroviária em áreas urbanas. A renovação inclui recursos explicitamente destinados a apenas 15 delas, em dez municípios, totalizando R$ 183 milhões. O restante aparece no Caderno de Engenharia - documento que orienta o projeto, mas não cria obrigação financeira para a concessionária. Sem valores e prazos na planilha econômico-financeira, a obra não existe para fins contratuais. É a mesma lógica que, no contrato original de 1996, permitiu que cerca de 49% da malha administrada pela FCA e concessionárias adjacentes fosse progressivamente abandonada.
O envio do processo ao TCU em abril coloca o Tribunal diante de uma escolha delicada. Aprovar a renovação no formato atual significa referendar um contrato onde obras críticas - a segregação ferroviária em Belo Horizonte e correções de traçado na Bahia, entre outras - não têm garantia de execução. Negar a aprovação, por outro lado, arrisca deixar a concessão vencer em agosto sem renovação, transferindo ao Estado o ônus de operar uma malha de 8 mil quilômetros. O TCU já sinalizou, em auditorias anteriores, a fragilidade dos mecanismos de fiscalização da ANTT sobre ferrovias - incluindo a dependência de dados declarados pelas próprias concessionárias, sem verificação independente. Agora, o Tribunal terá de decidir se exige a inclusão das obras críticas na planilha financeira ou aceita o modelo como apresentado.
A renovação gerou ainda disputa entre estados por participação nos investimentos bilionários, com governos ameaçando judicializar o processo caso sejam excluídos. Essa pressão é sintoma e agravante ao mesmo tempo. Sintoma porque revela que os governadores sabem que, se a obra não entrar na planilha agora, dificilmente entrará depois. Agravante porque a judicialização pode travar um processo que precisa de agilidade - a concessão vence em agosto. O precedente da Ferrovia Norte-Sul é ilustrativo: disputas regionais e sobreposição de pleitos atrasaram contratos por anos, enquanto a malha ficou subutilizada durante o debate nos tribunais.
O caso da FCA não é isolado. O TCU identificou, em auditoria sobre efetividade das concessões ferroviárias, que concessionárias descumpriram obrigações contratuais, desativaram trechos e não prestaram serviços adequados. A ANTT dependia de informações autodeclaradas para acompanhar indicadores de segurança e desempenho. O padrão é recorrente: acordos com cifras bilionárias no título, planilhas obrigatórias esvaziadas nos detalhes, e fiscalização sem instrumentos para cobrar o que não foi formalizado. A Lei nº 13.448/2017, que regulamenta as relicitações e renovações de concessões de transportes, prevê mecanismos de controle e equilíbrio econômico-financeiro - mas sua efetividade depende do que entra na planilha, não do que fica no caderno.
Para que a renovação da FCA não repita o ciclo de promessas não cumpridas, seria necessário:
- O TCU exigir, como condição para aprovação, a inclusão das obras de conflito urbano mais críticas na planilha econômico-financeira vinculante, com valores, prazos e penalidades definidas, antes de homologar o acordo com a VLI.
- A ANTT adotar mecanismos de verificação independente dos dados de desempenho da FCA, conforme já recomendado pelo próprio Tribunal em acórdãos anteriores, eliminando a dependência de informações autodeclaradas pela concessionária.
- O Ministério dos Transportes publicar, antes da assinatura do contrato renovado, um plano de gestão das 163 obras sem financiamento definido - indicando quais ficam sob responsabilidade da União, quais poderão ser absorvidas por estados e quais entrarão em revisões contratuais futuras.
- O governo federal vincular os gatilhos de benefícios tarifários futuros ao cumprimento de marcos de obras auditados de forma independente, e não apenas à autodeclaração da VLI.
O desafio da renovação da FCA não é decidir se a ferrovia merece mais 30 anos de operação privada. É garantir que o contrato que autoriza esse período seja capaz de cobrar o que promete - e que o Estado tenha instrumentos reais para verificar. Sem isso, o Brasil terá mais uma concessão renovada com anúncios bilionários que envelhecem nos cadernos de engenharia.
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